Por Carson Gilbert • 14 minutos de leitura
Eu tenho um ritual que repito quase toda semana. Acordo um pouco mais cedo, pego o cesto de vime que comprei na feira de artesanato e caminho até o mercado municipal. Não é o mercado turístico que aparece nas fotos. É o mercado onde as pessoas da cidade vão comprar o que vão comer de verdade. O cheiro é diferente: pão quente, peixe fresco, café forte e um leve aroma de laranja que vem das caixas empilhadas perto da entrada.
O senhor que vende pão de centeio já me conhece. Ele se chama António e tem mãos grandes, cheias de farinha seca nas unhas. Quando me vê, ele já separa o pão que eu gosto — aquele com sementes de girassol e um pouco de melado. Ele nunca me pergunta o que eu quero. Apenas me entrega e diz “hoje está bom, experimenta”. Eu pago, agradeço e ele sempre me conta alguma coisa pequena: que o neto dele começou a andar, que a filha mudou de emprego, que choveu muito na terra dele no norte. Eu escuto. Não anoto nada. Mas depois, quando chego em casa, essas frases voltam na minha cabeça enquanto corto o pão.
Existe uma senhora que vende queijos e enchidos. Ela se chama Dona Lurdes. As mãos dela são pequenas e rápidas. Ela corta fatias finas de queijo curado e me oferece para provar antes de comprar. Uma vez eu comentei que o queijo estava especialmente bom. Ela me olhou por cima dos óculos e disse: “Este é do meu irmão. Ele ainda faz do jeito antigo, com leite da própria vaca.” Eu comprei mais do que precisava só para levar um pedaço para casa e pensar naquela frase.
Eu percebi que as pessoas no mercado não vendem só comida. Elas vendem pedaços da própria vida. O homem que vende azeite me explicou uma vez como a sua família escolhe as azeitonas no ponto exato de maturação. Ele me mostrou a diferença entre o azeite de uma semana e o de outra. Falou do cheiro da terra depois da chuva, do barulho das folhas quando o vento passa. Eu saí de lá sentindo que tinha aprendido algo que não cabe em nenhum livro de culinária.
“O mercado não é um lugar para comprar coisas. É um lugar onde as histórias se cruzam por alguns minutos antes de cada um voltar para a sua vida.”
Eu poderia comprar tudo no supermercado. Seria mais rápido, mais barato talvez, e eu não precisaria falar com ninguém. Mas eu escolho o mercado porque lá o tempo desacelera. Eu tenho que esperar minha vez. Eu tenho que explicar o que quero. Eu tenho que ouvir o que me contam. E isso, de alguma forma, me faz sentir mais presente no meu próprio dia.
Quando volto para casa com o cesto cheio, eu não tenho pressa de guardar as coisas. Eu coloco o pão na mesa, corto uma fatia, sinto o cheiro do centeio e penso no António. Pego o queijo, corto uma lasca fina e me lembro da Dona Lurdes falando do irmão. Esses pequenos atos de memória transformam o que seria apenas uma refeição em algo que carrega mais significado.
Eu não sei se as pessoas que me atendem no mercado sabem que eu escrevo sobre elas. Provavelmente não. E talvez seja melhor assim. Eu não quero que elas mudem o jeito de ser só porque alguém está prestando atenção. Eu quero que elas continuem sendo exatamente como são: pessoas que trabalham com as mãos, que contam histórias sem perceber e que, sem saber, me ajudam a lembrar que os dias são feitos de mais coisas do que tarefas e compromissos.
Às vezes, quando o mercado está mais vazio, eu sento num banco perto da entrada e fico olhando as pessoas entrarem e saírem. Vejo mães com crianças pequenas, idosos com sacolas pesadas, casais que discutem o que vão fazer no jantar. Cada um carrega uma vida inteira nas costas. E por alguns minutos, essas vidas se cruzam no mesmo espaço. Eu anoto mentalmente uma frase aqui, uma expressão ali. Depois, quando chego em casa, essas anotações viram palavras no meu caderno.
Não é sobre ser escritor. É sobre não deixar que o dia passe sem que eu tenha reparado em algo. O mercado me ensina isso toda semana. E eu continuo voltando porque preciso desse lembrete constante de que as coisas mais importantes muitas vezes acontecem em silêncio, entre uma conversa sobre o tempo e a entrega de um pão quente.