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Pausas que viram poesia

Por Carson Gilbert • 11 minutos de leitura

Em Portugal eu aprendi que a pausa não é o oposto da produtividade. Ela é parte do ritmo. Quando eu vivia no Canadá, eu via qualquer momento sem ação como tempo perdido. Aqui, eu vejo pessoas parando no meio da rua para conversar, sentando em cafés sem olhar o relógio, e percebo que essas pausas são onde a vida realmente acontece.

Eu tenho um café favorito perto de casa. Não é especial. As mesas são de madeira desgastada, o chão é de azulejo antigo e o dono, o Sr. João, serve o café sempre da mesma forma: primeiro o açúcar, depois o café, depois mexe três vezes devagar. Eu sento sempre na mesma mesa, perto da janela. E eu não faço nada. Eu só fico ali, olhando as pessoas passarem, ouvindo o barulho baixo das xícaras, sentindo o cheiro do café torrado.

O que acontece quando a gente não faz nada

Nos primeiros meses eu levava o computador. Tentava escrever enquanto tomava o café. Mas logo percebi que as melhores frases não vinham quando eu tentava forçar. Elas vinham depois, quando eu já tinha voltado para casa e a imagem do senhor que varre a rua todos os dias às nove da manhã ainda estava na minha cabeça. Ou quando eu lembrava do jeito como a luz entrava pela janela rachada do café e iluminava o jornal que um idoso lia devagar.

A pausa me ensina a prestar atenção no que está acontecendo agora. Não no que eu preciso fazer depois. Não no que deveria ter feito antes. Apenas agora. E isso muda a qualidade do que eu escrevo. As palavras ficam mais honestas quando elas nascem de um momento em que eu não estava tentando ser profundo.

“Às vezes a melhor coisa que eu faço em um dia é não fazer nada por vinte minutos. É nesses vinte minutos que as coisas que eu realmente quero dizer encontram espaço para aparecer.”

Por que as pausas são difíceis no começo

No início eu me sentia culpado. Eu pensava que deveria estar caminhando, explorando, produzindo conteúdo, aproveitando o tempo. Mas aos poucos eu percebi que “aproveitar o tempo” para mim significava encher cada minuto com algo. E isso me deixava mais cansado do que qualquer trabalho.

Em Portugal, a pausa é cultural. As pessoas não se desculpam por demorar um pouco mais no café. Elas não correm para o próximo compromisso como se o tempo fosse um inimigo. Elas aceitam que o dia tem espaços em branco e que esses espaços são necessários.

Eu comecei a experimentar. Deixei o celular em casa algumas vezes. Fiquei sentado no banco da praça depois do almoço sem fazer nada. No começo foi estranho. Depois, eu comecei a notar coisas: o padrão das nuvens, o jeito como as crianças brincam de corrida sem competir de verdade, o som distante de uma guitarra que alguém toca num terraço.

Essas observações viram frases. Essas frases viram parágrafos. E esses parágrafos viram os textos que eu compartilho aqui. Tudo porque eu parei de tentar preencher cada segundo.

Eu não sei se isso funciona para todo mundo. Mas para mim, a descoberta mais importante que fiz em Portugal foi que a vida não precisa ser uma sequência constante de ações. Ela pode ter pausas. E nessas pausas, às vezes, a gente encontra mais do que encontraria correndo atrás de algo maior.

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