Meu nome é Carson Gilbert e eu nasci numa cidade média do Canadá chamada Kitchener. Cresci entre neve, hockey e a sensação constante de que o tempo estava correndo mais rápido do que eu conseguia acompanhar. Depois da universidade entrei numa empresa de tecnologia que prometia crescimento rápido. E cresceu. Em cinco anos eu já estava gerenciando equipes, viajando toda semana e respondendo emails às duas da manhã porque “o mercado nunca dorme”.
Eu achava que aquilo era sucesso. Tinha apartamento com vista, carro que eu mal usava e um círculo social que se reunia mais em bares caros do que em casas. Mas aos poucos comecei a notar que eu não conseguia mais lembrar o gosto da comida que comia no almoço. As conversas com amigos viraram atualizações de status. E quando minha mãe me perguntou pelo telefone o que eu estava sentindo de verdade, eu não soube responder.
Em 2022, depois de um projeto que consumiu nove meses da minha vida e terminou com uma reunião de cinco minutos onde me agradeceram pelo esforço, eu pedi demissão. Não foi um grande gesto dramático. Foi só uma mensagem no Slack às 23h47: “Preciso de um tempo. Vou embora.”
Comprei uma passagem só de ida para Lisboa porque um amigo de faculdade tinha morado lá por um ano e falava que “o tempo tem outro ritmo”. Eu não sabia bem o que isso significava, mas soava como algo que eu precisava.
Cheguei em setembro. O calor ainda estava forte, o cheiro de mar misturado com café torrado me confundia. Aluguei um quarto pequeno num prédio antigo do bairro da Graça. O elevador era daqueles antigos de grade de ferro que faz barulho de corrente. A senhora do primeiro andar, dona Maria, me viu lutando com a mala e subiu os três andares comigo conversando sobre o tempo. Eu mal entendia o português dela, mas sorri e agradeci. Ela me deu um pote de doce de abóbora feito por ela.
Nos primeiros meses eu tentei fazer tudo que os guias recomendam: Sintra, Cascais, Porto em fim de semana. Mas o que realmente ficou foi o que aconteceu nos dias sem plano. Eu sentava na janela do meu quarto e via a luz mudar nas telhas vermelhas. Comecei a reparar que em Portugal as pessoas não correm para o próximo compromisso. Elas param para conversar com o vizinho, para ajustar o cachecol da criança, para olhar o mar mesmo quando estão com pressa.
Um dia, numa livraria pequena perto do Chiado, o livreiro me perguntou se eu estava procurando algo específico. Eu disse que não sabia. Ele me mostrou um livro antigo de crônicas portuguesas e falou: “Às vezes a gente não precisa procurar. A gente precisa só prestar atenção.” Eu comprei o livro e comecei a ler devagar, parando em cada frase. Foi a primeira vez em muitos anos que li sem sentir culpa por não estar produzindo nada.
“Eu não vim para Portugal para encontrar a paz. Vim porque estava cansado de não conseguir ouvir meus próprios pensamentos.”
Depois de um ano, mudei para uma cidade menor perto de Coimbra. Aqui as coisas são ainda mais lentas. O padeiro me chama pelo nome. A mulher da mercearia me pergunta se o meu “amigo do norte” (meu pai) já veio me visitar. Eu comecei a escrever não porque queria ser escritor, mas porque precisava organizar o que estava sentindo. As palavras saíam sozinhas quando eu descrevia o cheiro do pão que sai do forno às seis da manhã, ou a forma como o senhor da praça arruma as cadeiras todos os dias exatamente da mesma maneira.
Não tenho uma grande missão. Não quero ensinar ninguém a viver melhor. Só quero registrar o que vejo antes que passe. Porque as coisas pequenas têm o hábito de desaparecer quando a gente não presta atenção nelas.
Hoje eu acordo, faço café, sento à mesa da cozinha com a janela aberta e escrevo o que aconteceu no dia anterior. Às vezes é só uma frase. Outras vezes são páginas inteiras sobre como a senhora do mercado me ensinou a escolher tomates maduros tocando só com a ponta dos dedos. Eu guardo tudo num caderno preto simples. E de vez em quando compartilho aqui, no Lexili, para quem também gosta de olhar devagar.
Se você chegou até aqui, obrigado. Significa que talvez você também sinta que o mundo está rápido demais. Eu não tenho respostas. Tenho apenas anotações. E isso, para mim, tem sido suficiente.
Se quiser conversar sobre qualquer coisa que leu aqui ou simplesmente dizer olá, é só escrever.
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