Por Carson Gilbert • 16 minutos de leitura
Eu não coleciono objetos. Não tenho prateleiras cheias de coisas que comprei em viagens. Não tenho caixas de memorabilia. O que eu coleciono são momentos que não cabem em fotos e que não precisam de moldura. São instantes pequenos, quase invisíveis para quem passa correndo, mas que para mim carregam mais significado do que qualquer coisa que eu poderia comprar.
Um deles aconteceu numa manhã de terça-feira. Eu estava na padaria esperando minha vez. Na minha frente, uma senhora de uns setenta anos pediu dois pães e uma bica. O padeiro, um homem de bigode grisalho, perguntou se ela queria o pão de ontem ou o de hoje. Ela respondeu que queria o de ontem, porque “o de hoje ainda está quente demais e eu gosto quando ele esfria um pouco”. Eles riram juntos como se fosse uma piada antiga que só eles entendiam. Eu anotei mentalmente aquela frase. Não porque era engraçada. Porque era verdadeira. Porque mostrava uma relação que existe há anos, feita de pequenas escolhas repetidas.
Eu carrego um caderno pequeno no bolso de trás. Não é para escrever grandes ideias. É para registrar frases que ouço, expressões que vejo, momentos que passam rápido demais. Quando chego em casa, eu passo essas anotações para um caderno maior, com mais detalhes. Não é um diário. É uma coleção de pedaços soltos que, juntos, formam uma espécie de mapa do que eu estou vivendo.
Um dia, uma criança de talvez cinco anos parou na praça e acenou para um pombo. O pombo não se moveu. A criança acenou de novo, mais devagar. O pombo continuou ali. A mãe chamou a criança para ir embora. A criança acenou uma última vez, como se dissesse adeus a um amigo. Eu anotei isso. Não sei por quê. Talvez porque naquele gesto havia mais delicadeza do que em muitos gestos que eu vejo entre adultos.
“Eu não guardo coisas. Eu guardo a maneira como as coisas aconteceram. O jeito como a luz estava, o tom da voz, o que eu senti no peito naquele segundo.”
Eu não sei se essas anotações vão virar um livro um dia. Provavelmente não. Eu não escrevo para publicar. Eu escrevo porque se eu não registrar, esses momentos desaparecem. E quando eles desaparecem, eu perco um pouco da textura do meu próprio dia.
Em Portugal eu aprendi que a vida não é feita de grandes eventos. Ela é feita de uma sucessão de pequenos instantes que, se não forem notados, passam como se nunca tivessem existido. O cheiro do pão que sai do forno, a forma como o senhor da mercearia arruma as latas de azeite todas as manhãs, o silêncio que fica depois que uma música termina num espaço pequeno. Esses são os meus tesouros. Eles não ocupam espaço. Eles não precisam de manutenção. Eles só precisam que eu preste atenção.
E quando eu presto atenção, eu me sinto menos sozinho. Porque esses momentos me conectam com as pessoas que os vivem comigo, mesmo que eu nunca mais as veja. Eles me conectam com o lugar onde eu escolhi viver. E, de alguma forma, eles me conectam comigo mesmo — com a versão de mim que decidiu parar de correr e começar a olhar.